quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A liberdade e o amor


Recordo que há poucos dias falei sobre ser ponte, não construtora de abismo. Como não poderia deixar de ser, quero saber se, você aprendeu a ser ponte? Melhor, você quer ser um construtor de ponte, ou você gosta de estar do lado do abismo? Entendi que para ser um verdadeiro construtor de ponte, devo saber amar.

Neste compasso, percebi que o amor e a liberdade caminham juntos. Às vezes temos o amor e por não sabermos amar, o amor sublime, acabamos que perdendo a liberdade, outras vezes roubando a liberdade do amado, e isto é amar?


Dois dos maiores anseios do coração humano é constatado na parábola do filho pródigo que nos remete diante da tensão existente entre o amor e a liberdade, dois dos maiores anseios do coração humano.

Um ansiava pela liberdade enquanto que o outro desejava ser amado. A tensão se explica pela aparente contradição na experiência da liberdade e do amor. O senso comum define a liberdade como a não sujeição do eu ou do ego a qualquer realidade limitador ou impeditiva da realização de desejos e vontades.

Livre é quem faz o que quer, quando quer, onde quer, como quer, porque quer, e assim por diante.

O amor, por sua vez, é compreendido pela entrega do eu ou do ego ao objeto amado, o que implica renúncia, abnegação, e até mesmo sacrifício. Quem ama valoriza mais o relacionamento com o ser amado do que a realização de suas vontades e desejos. Isto é, amar é abrir mão da liberdade.


O mesmo Jesus que disse ser a fonte da liberdade: “se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (João 8.36), exige que seus seguidores morram para si mesmos: “se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo” (Mateus 16.24). Nesse sentido, a liberdade não é compatível com o amor, pois o amor não é compatível com o egoísmo-egocentrismo.


A pretensão humana de liberdade conforme descrita é ilusória, pois é fato que a liberdade humana não é absoluta: ninguém consegue fazer o que quer, onde quer, como quer... A realidade na qual vivemos impõe limites à liberdade humana, como, por exemplo, a impossibilidade de voar ou de sobreviver sem dormir e respirar. São limitações que não implicam desejos e independem das vontades e, por esta razão, não constituem dilemas éticos.


Mas há outros limites que implicam posicionamentos éticos e decisões morais, como, por exemplo, o zelo do corpo e o cuidado das relações de confiança. Sempre que os limites de sua liberdade são desrespeitados, o ser humano entra em rota de colisão com sua natureza, a natureza da realidade em que vive e, portanto, de autodestruição e destruição do que lhe tem valor. Por exemplo, aquele que desrespeita o limite imposto pela lei da gravidade e pretende andar sobre os ares pula para a autodestruição, assim como aquele que não cuida de sua saúde. O mesmo ocorre com quem deseja se relacionar com base na mentira, na infidelidade e na exploração do outro em benefício próprio: destrói a si mesmo, ao outro, e também à relação de amor.


O dilema entre a liberdade e o amor, portanto, pode e deve ser superado, primeiro pela consciência de que a liberdade humana é relativa e, também, e principalmente, pela renúncia voluntária (livre) da vida egocêntrica, em favor das relações de amor. Amar implica escolher livremente se dedicar ao amado. Isso é graça: entrega do si mesmo em favor do objeto amado: “a minha vida ninguém a tira de mim, mas eu a dou de minha espontânea vontade” (João 10.18). Dou espontaneamente porque sou livre, e mesmo assim a dou, porque amo. Assim viveu Jesus. Assim morreu Jesus. E, porque livre e pleno de amor, a morte não o pôde reter, ressuscitou.

Soli Deo Gloria.

Ahilsa Marques

24/10/09

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